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domingo, 14 de agosto de 2011

NOX GRATIA NOX

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Quero te conhecer melhor - disse ele envolvido nos meus braços.
REGRESSVS:
Os dois haviam se encontrado na penumbra devassa de um lugar escuso. Há uma massa de corpos em transe que descoordenadamente dança ao som de seus hinos de acasalamento.
O ritual do cauim chegou ao clímax. De preto, as Iracemas distribuem o líquido sagrado a todos os fiéis.
Olharam-se. Exibiram-se.
Beijaram-se.
Adaptaram-se ao corpo um do outro.
- Quero te conhecer melhor - uma voz me puxa para a realidade.
Lentamente, eu lhe dirijo a palavra:
- Por que? - pergunto, inconformado, diante da declaração.
Ele, atônito, não me responde.
- É o fim -  inflexiono autoritariamente a voz.
Calmamente me desvencilho daquela união, indissolúvel na sua fugacidade. Faço o caminho de volta para o terceiro vale do sétimo círculo. Lembro-me de Delfos. Transfigurado em Pythía, vaticino:
- Conhece-te a ti mesmo - e, abraçado pela multidão, desapareço.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Literatura Gay



É quase impossível encontrar, em língua portuguesa, livros que tratem a respeito da homossexualidade. E devo dizer que grande parte das publicações em nosso idioma são realizadas por editoras portuguesas.
Se você domina o inglês, ou o espanhol, sua vida será mais fácil: grande parte dos historiadores, sociólogos e antropólogos que se propuseram a estudar a homossexualidade tem publicações nesses idiomas.
A partir de agora começarei a dar dicas de livros que acho imprescindíveis para aqueles que, como eu, querem "fundamentar sua revolta".
Começarei com um em português, dada a escassez deles.
Trata-se de Born to be Gay - História da Homossexualidade, de William Naphy, publicado pelas Edições 70, de Lisboa, Portugal.
Naphy é historiador, docente na School of Divinity, History and Philosophy da University of Aberdeen, Escócia (UK) e realiza um interessante estudo a respeito das bases históricas da homofobia, e das manifestações de práticas homossexuais, e de uniões entre pessoas do mesmo sexo nas civilizações orientais e greco-romana/ocidental.
É uma excelente obra introdutória, de fácil compreensão para aqueles que querem começar a ler sobre o assunto.
Infelizmente, só há essa edição portuguesa, e considero um sacrilégio comprá-la nas livrarias nacionais, dado o preço abusivo. Aconselho a Amazon (é muito provável que só vá encontrá-lo em inglês), onde você poderá comprar uma edição usada a um preço razoável.
Bibliotecas universitárias, como a da FFLCH/USP, UNESP e do IFCH/UNICAMP são também uma ótima saída.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Historiae Homosexualium


Não te deitarás com um homem como se fosse mulher: isso é uma abominação.  (Levítico 18:22)

Se um homem dormir com outro homem, como se fosse mulher, ambos cometerão uma coisa abominável. Serão punidos de morte e levarão sua culpa. (Levítico 20:13)

O Levítico, um dos cinco livros do denominado Pentateuco, os primeiros do Velho Testamento da Bíblia, pode ser considerado como o pai da homofobia em termos de Civilização Ocidental. Suas avós são as Leis Médio-Assírias§ 18 e 20) e as Leis Hititas (§ 189), textos legais que claramente inspiraram sua composição, já que ele tem um caráter eminentemente normativo: regras de conduta que os hebreus deveriam observar no trato social.
A interpretação da Bíblia sempre foi objeto de controvérsia. A Igreja Católica, bastião único da cristandade ocidental por séculos adotou uma interpretação única, produto dos estudos promovidos pelos doutores da Igreja.
Na Idade Moderna, com a Reforma Protestante e o advento de traduções dos textos bíblicos para os idiomas nacionais, tal como formação de uma Bíblia Protestante, que promoveu uma nova seleção dos livros, prega-se a interpretação livre dos textos sagrados.
Anote-se que a Bíblia ainda é entendida, para as religiões judaico-cristãs, como pura expressão do verbo divino. Tal percepção tem como consequência a ideia de que o texto bíblico é isento de falhas e contradições. 
Seria incoerente exigir que a interpretação religiosa de um texto sagrado levasse em consideração os aspectos históricos e culturais que influíram em sua composição. Isso é papel da ciência histórica.
A leitura do Pentateuco permite uma clara percepção de que a manutenção do potencial reprodutivo do povo hebreu é uma das principais preocupações de seus escritores. Quando deus diz a Adão e Eva, no Gênesis, frutificai, e multiplicai-vos, enchei a Terra e submetei-a (1:28) ele indiscutivelmente determina que é o povoamento da Terra e seu domínio o objetivo a ser perseguido pela sua criação.
Suscita-se então a dúvida de por que Moisés, a quem é atribuída a composição dos cinco livros primos, insistiu tanto em manter o potencial reprodutivo de seu povo.
A Crescente Fértil, região histórico-geográfica habitada pelos semitas, dentre eles os hebreus, é marcada pela fragilidade territorial que possibilitou ondas de invasão de povos vindos do Oriente. Não há, como na Europa Continental, obstáculos geográficos que inviabilizaram invasões recorrentes.
Os hebreus, em especial, foram vítimas dessa fragilidade. Moisés foi o libertador do Cativeiro do Egito, anos mais tarde, o povo hebreu ficará cativo na Babilônia.
A única solução vista pelos patriarcas como um modo de diminuir os riscos de invasões, e cativeiros em outros reinos, é o aumento populacional.
Qualquer obstáculo à reprodução dos hebreus é então condenado. Nisso se insere às condenações à homossexualidade presentes em Levítico, Reis e Deuteronômio.
O Código de Hammurabi, as Leis de Urukagina de Lagash e as Leis de Eshnunna, textos legais precedentes às Leis Médio-Assírias, Hititas e ao Levítico não apresentam dispositivos condenatórios substanciais à homossexualidade. Percebe-se um recrudescimento dos costumes com a ascensão das duas civilizações guerreiras que posteriormente irão influenciar o conjunto normativo da Bíblia Hebraica.
O judaísmo estava adstrito a um determinado grupo étnico. O desenvolvimento do cristianismo, notadamente do catolicismo, e sua ambição de universalidade concretizada na popularização do monoteísmo cristão na Civilização Ocidental mundializam a série de condenações bíblicas à homossexualidade.
As práticas, antes toleradas pela cultura greco-romana, vão aos poucos sendo alvo de proibições legais. Na Idade Média, com o domínio quase absoluto da Igreja sobre a política europeia, observamos notícias de perseguições à homossexuais.
Há um arrefecimento dessas regras costumeiras na Idade Moderna, graças à perda de prestígio da Igreja e da religião de modo geral, que é revertido com o alvorecer da Idade Contemporânea e da cultura burguesa.
A era vitoriana inaugura um puritanismo rígido nos costumes, com o deslocamento do sexo para uma esfera privada por excelência.
As teorias cientificistas do século XIX passam a investigar as origens biológicas da homossexualidade, conceituando-a como uma patologia.
Vários países editam normas discriminatórias e proibitivas.
Em 1865, no Reino Unido, um dos expoentes da literatura gay, Oscar Wilde é condenado a pena de trabalhos forçados por uma série de atos imorais com rapazes.
É também no século XIX que observamos o início do movimento gay. Na Alemanha, em 1867 é fundado o Comitê Científico-humanitário (Wissenschaftlich-humanitäres Komitee, WhK), com fins de lutar contra uma prescrição do Código Penal Alemão. É considerado o primeiro movimento gay da história.
O WhK estava intimamente ligado ao Institut für Sexualwissenschaft (Instituto para a Ciência Sexual), criado para o estudo e investigação da sexualidade humana.
Em 1903 é fundada a Gemeinschaft der Eigenen (GdE, comunidade dos próprios, dos especiais), que publica a primeira revista gay em circulação da história, a Der Eigene.
Com o avanço do nazismo e o início às perseguições aos homossexuais na Alemanha, tais instituições desaparecem.
Gays passam a ser recolhidos em campos de concentração e marcados com um triângulo rosa invertido. Mais tarde, será um de nossos símbolos.
No Reino Unido, em 1897 é fundada a Ordem de Queronéia, que pode ser considerada a primeira organização LGBT do país.
É, no entanto, nos Estados Unidos que vai se desenvolver um Movimento Gay mais substancial. A revolução sexual dos anos 1960 cria a possibilidade de expressão dos LGBT's. O sexo não está mais escondido na esfera privada.
Os Distúrbios de Stonewall, em 28 de junho de 1969, em que LGBT's entraram em confronto com a polícia após se cansarem das perseguições inauguram uma nova organização política. É o estopim do movimento de liberalização dos gays que irá culminar logo em seguida, na Califórnia, com a ascensão de Harvey Milk.
Os gays passam a se organizar politicamente e pleitear pela edição de normas antidiscriminatórias e por seus direitos civis.
Quanto à homofobia, trata-se de um problema civilizacional, imiscuído na consciência religiosa das populações tributárias dos semitas.
Moisés, ao garantir a sobrevivência de seu povo, condenou séculos depois uma população à exclusão social e às perseguições. 
É a laicidade plena, a total separação entre Estado e religião, que garante a concretização dos direitos civis gays. Um estado só é laico quando consegue se desvincular de uma perspectiva religiosa de casamento, e de família.
Próximos capítulos: Brasil.

domingo, 3 de abril de 2011

Da criação ou Como surge o gay


Façamos o homem à nossa imagem e semelhança


Nascemos homossexuais. E em algum momento da vida despertamos para o fato. Uns aos sete, outros aos dezessete. Muito a contragosto, devo dizer que há notícias históricas informando que alguns despertam apenas aos quarenta a sete.
Fundamentalmente, não se trata de uma escolha.
Embora a cultura dominante ainda insista em usar a expressão opção sexual, não há nenhum de nós que se lembre de a ter preenchido em algum formulário.
Denominar orientação sexual, ou sexualidade de opção sexual é apenas um meio fácil de transferir a culpa pelo preconceito a seu objeto. Já que se trata de uma escolha, sintam-se obrigados a serem vítimas da homofobia.
Há uma diferença sutil em ser gay e ser homossexual
Gay é o homossexual inserido na cultura e que com a comunidade criou laços de pertencimento, compartilhando seus valores e idioleto específico.
Tal inserção se dá por meio de um anteparo, um intermediário. Um gay que introduz o recém-saído habitante das geladas terras de Nárnia em nossa comunidade. Ensina-o tudo o que sabe. Como em um curso de idiomas, o neogay aprende nossa língua, lê nossa literatura, assiste nossos filmes. Aprende noções básicas de moda&estilo, afinal temos certo nome a zelar como fundadores do design.
Chamo essa figura de maker. Poderia ser menos colonizado e chamá-lo logo de criador, ou fabricante, mas essas expressões me lembram uma certa divindade monolítica cujo culto está em voga contemporaneamente.
Para sair do armário, o despertar é o primeiro passo. Aceitar que a sexualidade é parte de sua natureza e que ela está envolvida em uma certa irreversibilidade é fundamental.
O segundo passo é conhecer outros de nós, e enterrar para sempre aquela sensação de sermos sozinhos no mundo.
Todo gay é solitário até certa idade. Poucos de nós tem a sorte de com nossos iguais travar contato na infância. É provavelmente na adolescência que começamos a encontrá-los.
Eu tive dois makers. Cada qual com sua tarefa fundante. Digamos que eu tenha sido um caso trabalhoso. Uma pedra de especial dureza, difícil de ser lapidada. Não sabia absolutamente nada.É hiperbólico, mas é a pura verdade. Argila crua feito Adão pré-sopro divino eu era. Uma jovem Paraguaçu levada por Diogo Caramuru Álvares à corte de França.
A quatro mãos, eu fui criado.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Chaos

Jeff Wall, The Destroyed Room, 1978


E eu vi o reflexo da minha alma.
Aquele antes imaculado quarto era uma alegoria do caos.
Os titãs haviam passado os últimos seis dias a brigar sobre minhas roupas e livros.
Werther junto a um montículo de cuecas.
Uma Odisseia dentro da fronha como a me transmitir por difusão durante o sono as aventuras fantásticas de Ulisses.
A porta está fechada.
Só entro quando algo é necessário e logo retrocedo.
Encarar a própria alma é arrasador.
Pois, já é hora de voltar a ser Isaura. Garota prendada e que arruma a bagunça como ninguém.
A esta altura a esperta Reia já escondeu seu filho preferido em algum lugar de Creta.
E em breve o insano Cronos será destronado.
Guerra, antes da calmaria.
Meu quarto é um campo de batalha.

Verbo de ligação


Eu sou Barbra Streisand em Funny Girl e Omar Sharif sempre me diz So long, funny girl quando nos separamos.
Eu sou Vivien Leigh em Gone with the wind, e Clark Gable insiste em repetir Frankly my dear, I don't give a damn.
Eu sou uma Penélope que cansou de tecer a mortalha para esperar um Ulisses que caiu de encantos por Circe e não voltará nunca mais à Ítaca.
Eu sou uma eterna Katie girl, que um dia vai dizer Your girl is lovely, Hubbell.

Fasten your seatbelts. It's going to be a bumpy night.
Eu quero é ser Bette Davis.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Complexo de Penélope


.
Ela, um triênio, desmanchava à noite
À luz da lâmpada o lavor diurno;
(Odisseia, II, 76-77)


Criei um namorado imaginário.
Feito criança solitária filho único que acredita piamente estar brincando com alguém que ninguém consegue enxergar.
Nunca tive amigos imaginários. Sempre fui analítico demais para isso.
Invejava minha irmã, ela tinha três deles. E forçava a babá colocar seus pratos à mesa na hora do almoço.
Aos poucos, eles foram desaparecendo.
Meu namorado imaginário é de carne e osso.
Nós fazíamos tudo juntos.
Projetei em segredo minhas pretensões folhetinescas. Cozia e descozia a mortalha de Penélope.
Imergi em um mar de confusão.
O oxigênio acabou.
Ulisses não voltará à Ítaca.
Penélope-viúva ou se casa com um pretendente qualquer, ou se transforma em Elizabeth I.
Ela quer tempo para pensar.
Quer ser livre
O namorado imaginário deveria desaparecer. Mas como além apenas idéia existe também seu correspondente no mundo sensível, não há muito o que ser feito além de esperar que a comparação entre este e sua forma ideal acabe por produzir um certo desgaste.
Penélope, largue essa mortalha, teça a vela de uma nau. Vá conhecer o mundo.

Gay-friendly

As editoras infantis européias têm incluído em suas publicações livros com temática gay. Já há contos de fadas com dois príncipes, ou duas princesas. É um importante mecanismo contra o bullyng homofóbico, já que passa a inserir na realidade das crianças a possibilidade de existência de casais do mesmo sexo. Encontrei esse livro, que explica a homossexualidade de uma forma bem interessante.

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terça-feira, 22 de março de 2011

Gênesis



E  deus viu que aquilo era bom 

Antífona

Todos os dias, a caminho de casa, Eva parava à sombra da Árvore do Conhecimento. Letras capitalizadas, já que seus frutos são o próprio pecado. Mais tarde, eles serão os pais da Teoria da Gravitação Universal. Hoje, quando o mundo é apenas um feto, essa Árvore maiúscula é a morada daquela simpática cobra que ouve as dores de Eva muito melhor do que o lacônico Adão.
Qual é o gosto do pecado?
Provavelmente a mulher culpada pelo batismo de todas as crianças nascidas desde então se decepcionará. Água açucarada. Prefiro manga, dirá mais tarde.
Ele se enfureceu. Botou os filhos feitos de barro e costela para correr de seu jardim. Nús em pêlo. Envergonhados.
Maçãs deviam ser as suas preferidas dentre a extensa obra da Criação. É como escolher um verbete aleatório da Barsa.
Quanto à cobra, mudou-se. Macieiras são deveras desconfortáveis quando não há ninguém para ser aliciado.


Homilia

No princípio, ser gay é viver o dilema de Eva no Paraíso. É encarar com volúpia aqueles frutos vermelhos a se indagar acerca de seu sabor.
Não sei quem inventou o beijo, certamente algum australopitecus, que entediado feito Macunaíma, resolveu brincar. Minha única certeza é que se trata do correspondente à maçã de Eva na fundação de nossa sexualidade.
Eu sempre soube que era gay. Minha paixão pelas jóias de Vovó eram indício suficiente. Certo dia resolvi desfilar pelo quintal com aquele anel de alexandrita no indicador. Eva desfila com a maçã pelo Éden, mas resolve jogá-la em um buraco qualquer. Papai disse que não.
Beijar outro homem foi para mim a certeza final de que minha natureza era irreversível.

Cânon

Minha Árvore do Conhecimento era loura. Um metro e setenta. Nariz aquilino. Traços finos. Seus lábios eram da cor da maçã de Eva. Duas covinhas surgiam em seu rosto durante o sorriso.
Parei à sua sombra.
A casa de Vovó era ainda muito longe.
Não havia cesto de frutas.
Nem capa vermelha.
Posicionei-me à sua frente.
Olhei irresistivelmente para cima.
Lá estava ela, a maçã, pendurada no galho mais alto.
Pés de bailarina.
Segure um dos galhos.

Corpus

E um lábio encontrou outro lábio. Nossos verbos se entrelaçaram.
Só há um pequeno vácuo entre os corpos.
Não estamos nús em pêlo, mas cada minúsculo cabelo de nossos corpos levantam-se como que para saudar a hora chegada.
Não escuto deus a esbravejar.
Fomos expulsos de seu jardim há muito tempo, afinal.
Não há raios nem rios de lava.
A mulher conservadora ao lado não se tornou uma estátua de sal.
Quanto ao gosto, é de liberdade.
Pobre Eva, antes tivesse sido lésbica.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Problema insolúvel


Caio amou Mévio por anos. Mesmo depois da separação.
Conheceu o milionário Orbílio. Com ele se encontrou algumas vezes. Para aplacar a solidão.
Foi amante do famoso professor Karl Zimmerman. Era puro sexo. Teminou de forma conflituosa. E um livro que continha uma raríssima nota do século XVII sumiu misteriosamente de sua biblioteca.
Caio então decidiu se casar consigo mesmo. Permaneceu só, mas feliz, em sua torre de marfim. Era amigo do rei e  a mesa era farta.
Quando as feridas cicatrizaram, e após uma bem-sucedida cirurgia plástica para remover as últimas marcas, Caio conheceu Tício.
Tício não pertencia exatamente ao padrão de pessoas com quem Caio travava amizade. Digamos que uma certa identidade os uniu. Uma pequena peça de suas almas havia sido fabricada no mesmo estaleiro.
Caio começa a gostar de Tício. Encontra-se em um dilema e acaba por concluir que apenas responde à escassez. Não se gosta de alguém assim tão rápido.
Um retiro prolongado na província o faz esquecer seus fantasmas. Locus amoenus, fugere urbem et carpe diem.
Auto-iludir-se é uma especialidade de Caio. Foi fundamentando logicamente o não-gostar que conquistou com louvor sua tese de livre-docência.
A verdade é que Caio gosta de Tício. Recentemente admitiu em voz alta (ao menos os deuses deveriam ser informados). Com tal ato, deu realidade ao que sente.
Tício, no entanto, não gosta de Caio. Precisamente não o vê como homem. E dificilmente tal conjuntura se alterará tão cedo.
Trata-se do imemorial caso de amor não-correspondido, que tem movido vilãs desde os tempos dos folhetins, e mais recentemente, nas telenovelas.
Caio não tem o talento de uma Aurélia Camargo, tampouco o de uma Paola Bracho. É claro que guarda em  si o potencial para tanto, mas prefere manter uma certa ética. Ou etiqueta aplicada a relacionamentos, como diria uma alcoviteira.
Ele não sabe com certeza porque se apaixonou por Tício, afinal este congrega em si certas características normalmente não toleradas por nosso herói. Travessuras daquele filho gordo e rosado de Afrodite, possivelmente. Há escolha?
E nós nunca nos apaixonamos pelo homem certo, diria sua avó, em uma sutil defesa dos casamentos arranjados.
Caio está resoluto e decidiu guardar seus sentimentos em algum canto escuro e empoeirado do cérebro, na esperança de que o efeito do veneno da flecha de Eros acabe por passar.
Se você fosse analista de Caio, o que lhe diria?

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Há algo de estranho no closet


Ser gay é se sentir quase que a totalidade do tempo um extraterrestre. Dois mil anos de civilização ocidental judaico-cristã, mais uma colonização instrumento armado da Contra-reforma católica no país onde vivo ainda produzem uma sensação de estranhamento por parte da coletividade heterossexual em relação à população LGBT.
Vale lembrar que eu resido na pacata província.
Se um marciano já deve ser algo excepcional, eu nasci em Saturno.
Não consigo desenvolver um senso de pertencimento com a comunidade que me cerca. O que predomina é uma profunda necessidade de evasão. Ela marca a vida de um gay de província quando as fases de autonegação são superadas.
Isso ocorre, em menor medida, em relação ao local onde realizo meus estudos universitários.
Salvo o meu grupo de amigos eminentemente anarquistas e que compartilham comigo a sensação de não pertencer aquele lugar, todo o resto me é estranho.
Só o imparcial conhecimento acadêmico acaba por me interessar.
Frequentar uma festa da faculdade é comprovar empiricamente meus sentimentos.
Talvez por isso minha reputação é quase que sacrossanta. Isentei-me de vida social heterossexual.
Cursar uma graduação tradicional é ser introduzido em uma instituição altamente hierarquizada que dita o modo como você deve agir para conquistar o sucesso. O sucesso talvez seja aqui entendido como popularidade, mais tarde ele se chamará dinheiro. Prelúdio da chamada linha da vida imposta pelo mundo corporativo.
Enquanto que na faculdade você deve parecer despreocupado com os estudos, ir a todas as festas e se possível pertencer à Associação Atlética Acadêmica local, o mundo corporativo, como um bom antro de burgueses exige que você se case, tenha filhos, comece a frequentar à missa, à sinagoga ou a um culto protestante para ascender profissionalmente. Em resumo, se na faculdade o ideal é parecer pouco respeitável, em alguns anos você deve se tornar a pura expressão da moralidade. 
Como um gay é então inserido nesse mundo?
Duas correntes foram desenvolvidas para sanar esse problema:
A primeira delas, produto genuíno do pensamento narniano, defende a criação de uma máscara heteronormativa que facilitará a inserção do gay na cultura dominante. Atualmente é a mais utilizada. Por muitos anos se tratava de pensamento único.
A segunda, defendida por habitantes de Oz, enuncia o cultivo do gay pride associado a uma profunda busca pela excelência.
Isso significa forçar as portas do mundo heteronormativo por meio do trabalho. Uma espécie de ética protestante e o espírito do capitalismo versão gay. A idéia é conquistar posições por meio de indiscutível competência. E sair do armário.
Harvey Milk, nos anos 1970 dizia que era a saída de todos nós do armário que possibilitaria o arrefecimento do preconceito. Quando um homofóbico descobrisse que alguém de seu círculo íntimo era gay, talvez seus posicionamentos pudessem ser alterados. Se o coming out não diminui o preconceito, ao menos demonstra o fato de sermos uma fatia expressiva da população, o que cria para os governos a necessidade de formulação de políticas públicas voltadas a essa minoria. Como ignorar suas cartas constitucionais e os tratados de direitos humanos dos quais são signatários, tal como a pressão exercida pela representação política desse grupo?
A ética protestante e o espírito do capitalismo versão gay não é isenta de falhas no plano. É incrivelmente mais fácil se adequar à cultura dominante e seguir a linha da vida quando o fim é não lidar com o preconceito. 
A alguns gays, no entanto, é impossível a idéia de vida plena aliada à negação externa de sua natureza. Ser livre é necessariamente trilhar o caminho mais tortuoso.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O encontro às cegas


Era gelado e tinha gosto de mármore.

A despeito de grande parte da comunidade gay não ser adepta do que os estadunidenses chamam de date, ou para nós, encontro, devemos concordar de que se trata de uma modalidade bastante viável para se conhecer pretendentes.
Uma de suas subespécies é o denominado encontro às cegas, e que ocorre quando duas pessoas pessoas não se conhecem previamente, ou tem uma compreensão ainda superficial do outro. Normalmente, amigos casadoiros em comum cumprem o papel de tentar unir os corações, mas com o advento da internet os intermediários podem ser suprimidos.
Espectadores de Sex and the City desde a tenra idade como eu, devem saber que encontros às cegas podem ser catastróficos. Não me lembro de Carrie se dando bem em nenhum deles.
Aceitei um convite para um encontro às cegas. Tinha acabado de voltar para a província onde realizo meus estudos universitários, tinha a noite livre. Nada a perder.
Chances de catástrofes?
Tudo começou com Black Swan. Direção de Darren Aronofsky. Natalie Portman, Vincent Cassel e Mila Kunis  no elenco. O Lago dos Cisnes de Pyotr Ilyich Tchaikovsky permeando toda a narrativa.
Primeira anotação mental: vá assistir um filme ruim.
Um braço roça junto ao meu braço. Um rosto roça junto ao meu rosto.
Eu espero romantismo. Distancio levemente meu corpo da poltrona esperando que um braço cinja meus ombros.
Enganei-me. Disfarço e volto à posição original.
Tenho que lidar com comentários desnecessários.
Segunda anotação mental: não vá com alguém ao cinema que converse durante o filme.
Ele me beija. Eu sou pego desprevenido. Sinto-me um adolescente que não sabe beijar.
Terceira anotação mental: esteja sempre preparado para a lascívia.
Quero assistir ao filme. Ele não quer.
Não quero me atracar com alguém no cinema.
Quarta anotação mental:se estiver ruim, diga que vai ao banheiro e não volte mais. Breakfast at Tiffany's deve ensinar alguma coisa a você.
Termina o filme. Estamos distantes um do outro.
Ele quer ir jantar em um fast-food. Sinto minha dignidade se esvaindo.
Decido ir junto. Tento salvar o encontro. Talvez eu esteja sendo pudico demais.
Quatro nuggets e um sanduíche com a estranha combinação de frango com bacon depois, nada acontece.
Fique aqui anotado para esclarecimento de que fui eu quem pediu os nuggets.
Ele não fala.
Eu ensaio falar. Nenhum assunto germina.
Ele decide frustrar a segunda parte do encontro, tão decepcionado quanto eu acerca do andamento de nossas relações.
Eu quero conhecê-lo. Ele quer conhecer meus lábios. Só meus lábios. De preferência sob a proteção da escuridão.
São vinte e duas horas. Chego em minha casa às vinte e duas e trinta.
Tiro minhas roupas. Entro no banho.
Vocifero por telefone com meu amigo que intermediou o encontro.
Visto-me.
Bebo duas doses de conhaque.
Fumo três cigarros.
Saio pela noite.
Danço até as quatro da manhã.
Durmo até o meio dia.
Quinta anotação mental: não tenha encontros às cegas, eles podem ser catastróficos; e vá assistir Sex and the City.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

The Kids Are All Right


Sensação no Festival de Sundance, e exibido no Festival do Rio 2010, The Kids Are All Right, ou como na péssima tradução brasileira, Minhas Mães e meu Pai (desconfio que para produzir uma pré-compreensão no candidato a espectador de que se trata de um filme com temática LGBT), é uma comédia dirigida por Lisa Cholodenko, com roteiro feito pela diretora em parceria com Stuart Blumberg.
Nic(Annette Benning) e Jules (Julianne Moore) são um casal gay, mães de Joni (Mia Wasikovska) e Laser (Josh Hutcherson). 
Joni,a pedido do irmão, decide usar sua prerrogativa de ter atingido a maioridade e contacta o doador do sêmen utilizado na concepção dos dois. Ele é Paul (Mark Ruffalo) e sua presença irá mudar a organização de forças da família.
Ganhador de dois Golden Globes, e indicado a três Oscar, melhor filme, melhor atriz e melhor roteiro original, foi também indicado ao GLAAD Awards, importante premiação LGBT.
P.S.: Vampire Weekend na trilha sonora está sensacional!

Nota do autor:
Download disponível em torrent  no Filmes com legenda. Download direto no Intercine Gay.
Críticas no The New York Times, The New Yorker, The Telegraph. Informações na base de dados do IMDb.

Art Project powered by Google


Um dos primeiros sites que acessei, pelos idos de 1997, ainda através de uma internet discada de péssima qualidade, foi o do Musée du Louvre. Fiquei abismado com a possibilidade de ter acesso as suas coleções sem sair de casa.
Eu ainda estava na minha fase helenista, e confesso que passava horas admirando as coleções de arte greco-romana, e esperando com paciência as imagens carregarem.
Com o tempo, mais museus começaram a disponibilizar seus acervos na rede, e com ferramentas de zoom melhores. Foi um frenesi quando os Musei Vaticani digilitalizaram suas salas e possibilitaram uma visita virtual detalhista aos afrescos das Stanzi di Raffaello e da Cappela Sistina.
Minha paixão pela arte pode ser verificada na barra ao lado dessa página, lá você vai descobrir uma série de links de museus, galerias, teatros, bibliotecas e academias de letras. Os sites de museus europeus são os melhores, inegavelmente, mas no Novo Mundo, os museus estadunidenses com coleções significativas mantém também ótimos sites. Decepcionantes são os sites  latioamericanos.
Visitando o El País hoje à tarde tive uma boa surpresa: o Google, em parceria com 17 dos museus mais importantes do mundo lançou o denominado Art Project. Obras emblemáticas foram fotografadas em altíssima resolução e podem ser vistas em um nível de detalhe impressionte. Há também fotos panorâmicas das salas: uma visita virtual completa.
É o acesso às obras dos grandes mestres sem precisar sair de casa. Um passo importante na democratização do conhecimento humano.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Manual de Comunicação LGBT

Interessante publicação, voltada a educadores e profissionais da mídia, realizada pela ABGLT, com financiamento da UNAIDS, em parceria com o GALE, a FENAJ e o Sindicato de Jornalistas Profissionais do Paraná.
É ótimo para esclarecer dúvidas de pais e educadores no modo como lidar com a homossexualidade.
Também é útil para meus patrícios da província.
Clique aqui para ler.

Ciranda de Pedra


Nenhuma adaptação televisiva conseguiu captar a verdadeira alma do romance. Talvez em razão de ser a telenovela o formato errado para transpor um romance de Lygia Fagundes Telles.
A telenovela é filha derradeira dos folhetins do século XIX. Antes dela as radionovelas e as fotonovelas desempenhavam o seu papel em entreter nossas moças virgens, tal como suas atarefadas mães e avós.
Ciranda de Pedra é um romance de 1954, dividido em duas partes, que narra a vida de Virgínia, filha de Laura e do advogado Natércio, que após a separação dos pais é a única das três filhas que vai morar com a mãe, e seu padrasto Daniel, com quem tem uma relação conflituosa.
A infância de Virgínia é marcada pela tentativa de penetrar no mundo da mãe, mergulhada na demência, e sua ânsia por fazer parte do mundo das irmãs e seus dois amigos, Conrado e Letícia, mas não logra êxito em ambos objetivos.
Com a morte de sua mãe e o suicídio do padrasto, Virgínia se muda para a casa de Natércio, mas ao descobrir que era na verdade filha de Daniel, decide ir para um colégio interno.
A segunda parte versa sobre a volta de Virgínia do colégio interno e sua convivência com as irmãs, a fervorosa e fanática Bruna, e a despreocupada Otávia, que junto com Conrado e Letícia formam uma ciranda análoga à das estátuas dos anões do jardim.
Virgínia penetra na podridão e nos segredos dessa ciranda.
E decide sair.
Livro fantástico.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Do Gay Pride



Ou  "Sejamos eternamente orgulhosos"

Como que Gil Vicente diante do mote mais vale um asno que me leve que um cavalo que me derrube estou eu em relação ao Gay Pride. A diferença fundamental é que estou a desafiar eu mesmo, além de me faltar a genialidade do  teatrólogo português. Ele provavelmente tiraria isso de letra.
Há semanas me propus a escrever acerca do Gay Pride. Algo tem me incomodado no trato com alguns colegas gays. Decidi então discorrer sobre o que eu acho ingrediente fundamental para uma expressão completa em ser gay: seu orgulho, sua dignidade.
Parece-me que é mais fácil na província o desencontro entre o gay e sua cultura. Não vou chamar de divórcio, afinal em muitos casos não há um casamento que termina em fracasso. Estou falando em um total desconhecimento por parte do gay provinciano dos usos e costumes, da linguagem e da produção cultural da minoria a que pertence. Isso gera, comumente, por parte de tais gays um forte preconceito em relação ao que eles denominam meio gls.
Não querem ser tratados como gays, ser identificados como tais. Pregam o culto à masculinidade, à heteronormatividade pela heteronormatividade. Eu os chamo de parnasianismo tardio versão gay. Afinal é a forma pela forma que conta. Apenas a embalagem, o estereótipo, a externalização dos modos de agir.
Entendo perfeitamente a existência de gays masculinos. Não aceito, no entanto, a ambição totalitária de alguns em padronizar nosso comportamento, tornando-nos mais aceitáveis, palatáveis, à cultura heterossexual dominante. Creio como básica aceitação de nossa diversidade interna. Somos uma cultura complexa.
Nossos parnasianos provincianos além das reivindicações supracitadas, querem se relacionar com homens, de preferência na sombra. Frequentam ambientes, insistentemente denominados gls, características cópias homossexualizadas de um ambiente heterossexual. Podemos ser como eles, somos normais, nos aceitem porque somos brandos.
Jogam então os afeminados, os travestis, as drag queens no lugar que lhes cabe: a sarjeta.
Só há um erro no plano: a multidão de conservadores ainda os considera doentes, pervertidos, endemoniados. O torto que deve ser consertado.
E na sarjeta todos se encontram. Somos todos iguais.
Fomos encurralados em um gueto. Gostemos disso ou não. Lá desenvolvemos nossa cultura, e nos realizamos enquanto humanos. Há teóricos que acreditam na denominada Queer Nation: somos uma nação em intersecção com outras nações. Um povo, com identidade própria, idioleto específico e que produz sua cultura. Há uma ligação entre o indivíduo gay e o conjunto de todos os gays que se corporifica na cultura.
Chamamos esse complexo de relações entre o gay  e sua cultura de Gay Pride. Trata-se de, ao mesmo tempo, da identidade gay, combinada com o orgulho em ser gay e sua ânsia por dignidade.
É ele que desde Stonewall nos move a lutar por nossos direitos civis. 
Um de nós é morto a cada dois dias no Brasil. E temos a maior parada gay do planeta.
Somos enforcados no Irã. Na Arábia Saudita. E em vários países africanos.
Vivemos sob o frequente ataque dos grupos religiosos conservadores. Eu chamo isso de leitura excessiva e seletiva do Velho Testamento da Bíblia. Se cada conservador vivesse em perfeita observância do Levítico, poderia considerá-los autênticos. Escolher trechos da literatura mitológica judaico-cristã para segregar o grupo de pessoas que lhe incomoda, e ainda se dizer Ocidental no sentido mais puro é um desrespeito às bases da criação de nossas sociedades. O sangue de nossos patriarcas na Bastilha está sendo desperdiçado.
E que todo gay não se esqueça de nossa própria Bastilha e de nossa data nacional. 28 de junho deve honrada. E nossas sans culottes, as Drag Queens, homenageadas com a coroa que lhes cabe. Ter orgulho é não ter medo.