terça-feira, 22 de março de 2011

Gênesis



E  deus viu que aquilo era bom 

Antífona

Todos os dias, a caminho de casa, Eva parava à sombra da Árvore do Conhecimento. Letras capitalizadas, já que seus frutos são o próprio pecado. Mais tarde, eles serão os pais da Teoria da Gravitação Universal. Hoje, quando o mundo é apenas um feto, essa Árvore maiúscula é a morada daquela simpática cobra que ouve as dores de Eva muito melhor do que o lacônico Adão.
Qual é o gosto do pecado?
Provavelmente a mulher culpada pelo batismo de todas as crianças nascidas desde então se decepcionará. Água açucarada. Prefiro manga, dirá mais tarde.
Ele se enfureceu. Botou os filhos feitos de barro e costela para correr de seu jardim. Nús em pêlo. Envergonhados.
Maçãs deviam ser as suas preferidas dentre a extensa obra da Criação. É como escolher um verbete aleatório da Barsa.
Quanto à cobra, mudou-se. Macieiras são deveras desconfortáveis quando não há ninguém para ser aliciado.


Homilia

No princípio, ser gay é viver o dilema de Eva no Paraíso. É encarar com volúpia aqueles frutos vermelhos a se indagar acerca de seu sabor.
Não sei quem inventou o beijo, certamente algum australopitecus, que entediado feito Macunaíma, resolveu brincar. Minha única certeza é que se trata do correspondente à maçã de Eva na fundação de nossa sexualidade.
Eu sempre soube que era gay. Minha paixão pelas jóias de Vovó eram indício suficiente. Certo dia resolvi desfilar pelo quintal com aquele anel de alexandrita no indicador. Eva desfila com a maçã pelo Éden, mas resolve jogá-la em um buraco qualquer. Papai disse que não.
Beijar outro homem foi para mim a certeza final de que minha natureza era irreversível.

Cânon

Minha Árvore do Conhecimento era loura. Um metro e setenta. Nariz aquilino. Traços finos. Seus lábios eram da cor da maçã de Eva. Duas covinhas surgiam em seu rosto durante o sorriso.
Parei à sua sombra.
A casa de Vovó era ainda muito longe.
Não havia cesto de frutas.
Nem capa vermelha.
Posicionei-me à sua frente.
Olhei irresistivelmente para cima.
Lá estava ela, a maçã, pendurada no galho mais alto.
Pés de bailarina.
Segure um dos galhos.

Corpus

E um lábio encontrou outro lábio. Nossos verbos se entrelaçaram.
Só há um pequeno vácuo entre os corpos.
Não estamos nús em pêlo, mas cada minúsculo cabelo de nossos corpos levantam-se como que para saudar a hora chegada.
Não escuto deus a esbravejar.
Fomos expulsos de seu jardim há muito tempo, afinal.
Não há raios nem rios de lava.
A mulher conservadora ao lado não se tornou uma estátua de sal.
Quanto ao gosto, é de liberdade.
Pobre Eva, antes tivesse sido lésbica.

9 comentários:

Lobinho disse...

Esse texto é de sua autoria,Ricardo?

Ricardo disse...

É sim! Curtiu?

Lobinho disse...

Adorei. :D

Ricardo disse...

Que bom;D
Fico feliz.

Helô disse...

e só mais um comentário...que texto foda esse!!! Quase senti o tal gosto da liberdade ao ler seu texto...fantástico!

Ricardo disse...

hahaha
obrigado!

Ricardo disse...

você é parte da inspiração para ele!

Helô disse...

uau!!!
que gostoso ouvir isso! =]

Helô disse...

quer dizer...a não ser que a inspiração seja na parte "a mulher conservadora ao lado não se tornou uma estátua de sal"...hehehe